Afinal, o que é fluência?
- Daniel Pamplona

- 27 de jul.
- 9 min de leitura

Em qualquer área do saber, existem conceitos importantes e que contam com grande inserção nas conversas do dia-a-dia das pessoas. Se, por um lado, a abrangência desses conceitos permite que um campo do conhecimento expanda suas fronteiras para além do universo acadêmico, o modo como o senso comum adota tais ideias é, via de regra, diferente daquele utilizado pelos especialistas, de modo que certos esclarecimentos se tornam necessários.
No caso da Linguística, o conceito de fluência é um ótimo exemplo. Amplamente utilizado por alunos(as), professores e quem quer que esteja envolvido no processo de ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras, esse termo é geralmente utilizado para se referir ao estágio final que se deseja alcançar em uma língua estrangeira. Ao buscar um curso de inglês, por exemplo, os (as) estudantes têm interesse em saber em quanto tempo se tornarão fluentes. Algumas escolas usam o termo ao divulgar seus cursos, prometendo fluência após um dado período de tempo, enquanto outras preferem não fazer qualquer tipo de previsão nesse sentido. Seja como for, a fluência seria, para esse pensamento, um indicativo de habilidade global em um idioma estrangeiro (Schmidt, 1992, p. 358).
Entretanto, no campo da Linguística Aplicada, o conceito de fluência tem um escopo bem mais limitado do que aquele que se vê em seu uso popular. Além disso, ela coexiste com outros dois termos – acurácia e complexidade – que também figuram na discussão sobre a qualidade da produção de um(a) falante de línguas estrangeiras.
Meu objetivo com este post é apresentar esses conceitos e mostrar ao público não-especialista como eles são entendidos atualmente na área da Linguística Aplicada. Em resumo, argumentarei que a fluência é apenas um dos componentes de uma tríade que descreve a produção oral, e cujos outros dois fatores são a acurácia e a complexidade, mencionadas no parágrafo anterior. Nas próximas seções, apresentarei cada um desses conceitos, além de trazer algumas reflexões suscitadas por cada um deles.
Fluência
Conforme mencionado acima, o conceito de fluência na ciência linguística é mais restrito do que aquele do senso comum, para o qual a fluência se refere a um estado de completo domínio do idioma em todas as suas áreas. Na Linguística Aplicada, no entanto, a fluência oral diz respeito ao fluxo e à velocidade com que a fala é produzida, bem como aos fatores que influenciam esse fluxo. Pensemos na fluência como o nível de saída de água de uma torneira. Sendo a água a quantidade de palavras produzidas por um falante num dado período de tempo, essa água pode sair tanto em grande volume (o que equivaleria a uma pessoa que fala muito rápido) como em pequenas gotas (o equivalente a um(a) estudante de nível básico). Além disso, essa saída de água pode ser regular e contínua, ou irregular e intermitente. Da mesma forma, a fala de alguém pode ser produzida de forma contínua, sem quebras e pausas, ou de forma mais instável, com, por exemplo, pausas indevidas no meio de sentenças, um cenário comum quando se trata de estudantes de níveis básico e intermediário de uma língua estrangeira.
Em estudos empíricos, há diversas variáveis com base nas quais se pode mensurar o grau de fluência de uma produção oral. Por exemplo, Foster e Skehan (1996) citam a quantidade de reformulações, substituições imediatas de palavras, falsos começos (quando começamos uma formulação e logo a abandonamos), repetições, hesitações, pausas e silêncio total. Todas essas variáveis contribuem negativamente para a fluência, ou seja, quanto maior seu número, menos fluente é uma fala.
Note-se que, na comparação que eu fiz acima com um fluxo de água, a fluência não tem nada a dizer a respeito da qualidade da água em si. Se ela está cristalina ou poluída, isso é indiferente para o conceito de fluência. Da mesma forma, quando se trata da fala de alguém, a análise de sua fluência não diz nada a respeito da correção gramatical ou das escolhas de vocabulário que a pessoa fez (esses aspectos serão objeto da atenção dos dois outros critérios que discutiremos abaixo, a acurácia e a complexidade). Com efeito, não é nada incomum uma situação em que um(a) falante seja fluente (no sentido estrito discutido aqui), mas que produza uma fala repleta de erros gramaticais e com um vocabulário limitado e/ou inadequado para a situação comunicativa em questão. Uma tal situação pode acontecer, por exemplo, com imigrantes cuja aprendizagem do idioma se dá fora da sala de aula, nas situações cotidianas da vida no país estrangeiro. Nesse caso, a pessoa possivelmente adotará uma postura prática em relação ao idioma, buscando as ferramentas que lhe permitam resolver as demandas comunicativas de cada momento e sustentar interações com outros(as) falantes (Selinker, 2020, p. 285). Isso pode resultar em uma fala fluente, porém com baixo nível de correção e/ou complexidade linguística.
Por fim, também é importante notar que a fluência não é uma característica estanque, como se algumas pessoas fossem sempre fluentes, enquanto outras nunca o fossem. Existe um amplo grau de variabilidade da fluência, a depender de diversos fatores numa situação comunicativa. Se, por exemplo, o falante não tiver familiaridade com o tema em questão e, mesmo assim, tiver de discorrer sobre ele, é provável que sua fluência seja inferior à que seria caso se tratasse de um assunto de seu conhecimento. Além disso, fatores físicos, como cansaço, e psicológicos, como ansiedade e nervosismo, também podem afetar o quão fluente é uma fala.
Acurácia
A acurácia (em inglês, accuracy) é a medida da correção gramatical e do quão livre de erros é uma produção oral (Foster, Skehan, 1996). Ela verifica aspectos como concordância, conjugação verbal, ordem de palavras, utilização de pronomes, morfologia das palavras, dentre outros. Retornando à metáfora acima da saída de água de uma torneira, a acurácia tem por interesse verificar a existência ou não de impurezas no líquido que está fluindo.
Em relação à acurácia, há alguns pontos interessantes a destacar. O primeiro deles diz respeito à necessidade de se estudar gramática de forma explícita e intencional. O simples fato de existir uma medida chamada acurácia, cujo objetivo é verificar o quão gramaticalmente correta é uma comunicação, pressupõe que a produção oral de falantes estrangeiros geralmente contém erros. Muitos desses erros são típicos de usuários não-nativos(as) e não acontecem entre falantes que têm aquele idioma como sua língua materna. Essa diferença aponta para o fato de que a aprendizagem de uma língua estrangeira não garante domínio gramatical, como acontece no caso da aquisição de primeira língua.
Outro ponto importante diz respeito à relação entre fluência e acurácia. Uma hipótese importante na Linguística Aplicada diz respeito ao trade-off existente entre essas duas dimensões, ou seja, se busco falar de forma mais fluente, minha acurácia será prejudicada, e vice-versa (Skehan, 2009, p. 511). No primeiro caso, uma fala mais fluente é marcada por mais palavras num dado período de tempo e menos pausas, o que aumenta a demanda sobre os processos cognitivos responsáveis pela produção oral. Se considerarmos que o cérebro humano tem limites quanto à sua capacidade de processamento de informações, o volume maior de recursos cerebrais mobilizados para a produção da fala mais fluente implica uma menor disponibilidade de recursos para o processamento gramatical, o que pode levar à perda de acurácia. O mesmo é válido para o caso oposto: se desejo falar de forma mais gramaticalmente correta (durante uma apresentação formal, por exemplo), os recursos necessários para essa tarefa virão à custa de uma redução na fluência.
Complexidade
Para explicar o último fator que caracteriza a fala, vou recorrer novamente à comparação com a vazão de água de uma torneira. A título de revisão, vimos que, pela ótica da fluência, essa vazão pode ser mais ou menos forte, com um volume maior ou menor de água (palavras) por unidade de tempo, e cujo fluxo pode ser contínuo ou marcado por interrupções e irregularidades. Pela ótica da acurácia, olhamos para o conteúdo da água em si e verificamos a presença ou não de poluentes. No caso da produção oral, isso significa averiguar se há erros gramaticais na fala produzida.
No entanto, por mais importante que seja a pureza e ausência de poluentes, isso não é o bastante. A água também deve conter sais minerais que a tornem mais rica e saudável em sua composição. Sua essência deve ser mais complexa, por assim dizer, e é justamente disso que trata o fator que discutiremos nesta seção. A complexidade de uma fala se refere à riqueza de estruturas gramaticais e de vocabulário que ela apresenta. À medida que avançamos em nossos estudos do idioma, somos apresentados(as) a ferramentas linguísticas cada vez mais avançadas, que nos possibilitam um grau de expressão mais profundo e rico em detalhes.
A título de exemplo, pedi a uma inteligência artificial que gerasse três parágrafos diferentes com a apresentação pessoal de um economista. Esses parágrafos apresentam graus crescentes de complexidade: o primeiro é de nível básico (A1-A2), o segundo é intermediário (B1-B2) e o terceiro é avançado (C1-C2).
Nível básico:
Hello! My name is Daniel, and I’m an economist. I work for a bank. I help people and companies with money and investments. My job is interesting, and I learn new things every day.
Nível intermediário:
Hi! My name is Daniel, and I work as an economist at a commercial bank. My job involves analyzing market trends, preparing financial reports, and helping clients make investment decisions. Although my work can be demanding, I like solving problems and finding practical solutions.
Nível avançado:
Hi! My name is Daniel, and I’m an economist specializing in financial markets and investment analysis. My work involves not only interpreting economic data and assessing financial risks, but also translating complex information into recommendations that support strategic decision-making. What I find most engaging is the challenge of balancing quantitative analysis with an understanding of the broader economic factors that influence financial markets.
Do ponto de vista sintático, as sentenças do nível básico são mais simples e o texto como um todo nada mais é do que um encadeamento dessas sentenças curtas. Quando há algum tipo de conexão entre ideias, essas se fazem com conjunções simples, como o and utilizado na última sentença do primeiro parágrafo.
No nível intermediário, já podemos perceber que as sentenças se alongam, em parte como resultado do vocabulário mais amplo, que permite um maior detalhamento das explicações. Além disso, as sentenças começam a ter relações mais complexas entre si, como no caso da conjunção although utilizada no final do parágrafo e que estabelece uma relação de surpresa e contraste entre duas orações.
Por fim, no nível avançado, surgem novas e mais complexas estruturas gramaticais, como a estrutura paralela not only… but also… e a presença de algo que chamamos de cleft sentences, exemplificadas em What I find most engaging is…, cujo uso serve para deslocar a ênfase para um ou outro elemento da fala.
Além dessa crescente complexidade gramatical, é evidente como o vocabulário utilizado se torna mais amplo e específico, permitindo ao (à) falante descrever sua realidade de forma cada vez mais precisa. Esse incremento lexical também permite que a fala se torne mais extensa, como se pode perceber pela diferença de tamanho entre os parágrafos.
Por fim, é também interessante notar que o aumento da complexidade pode acontecer às custas de uma perda de fluência e/ou de acurácia. Em minha atuação como professor de inglês particular, percebo isso quase diariamente. Ao tentar utilizar uma nova estrutura gramatical aprendida, os (as) estudantes falam um pouco mais devagar, pois precisam prestar mais atenção à formulação de sua fala na presença de uma estrutura ainda pouco familiar, e/ou cometem erros em outras partes de sua comunicação, uma vez que grande parte de seus recursos de atenção teve de ser desviada para a utilização correta de uma estrutura ainda não automatizada. Devo dizer, no entanto, que esse processo é perfeitamente normal e desejável, pois é assim que conseguimos, de forma gradual, atingir níveis mais elevados de complexidade em nosso domínio do idioma estrangeiro.
Conclusão
Apesar do uso que o senso comum faz do conceito de fluência oral, vimos que, nos estudos linguísticos, ela se refere estritamente ao fluxo de palavras e à velocidade com que alguém fala. Por si só, a fluência não contempla todos os elementos que caracterizam a qualidade de uma produção oral. Também é necessário considerarmos os outros dois elementos da tríade: a acurácia (i.e. o grau de correção gramatical) e a complexidade (i.e. a riqueza estrutural e lexical) com que nos comunicamos numa determinada situação. Para retomar a metáfora que nos acompanhou ao longo deste post, uma fala de alta qualidade é como a água que sai de uma torneira de forma constante e em bom volume, sem impurezas e com riqueza de sais minerais em sua composição.
Referências
FOSTER, Pauline; SKEHAN, Peter. The influence of planning and task type on second language performance. Studies in Second Language Acquisition, v. 18, n. 3, p. 299-323, set. 1996.
SCHMIDT, Richard W. Psychological mechanisms underlying second language fluency. Studies in Second Language Acquisition, v. 14, n. 4, p. 357-385, dez. 1992.
SELINKER, Larry. Interlíngua. Tradução de Phellipe Marcel e Décio Rocha. Diadorim, v. 22, n. 1, p. 275-295, 2020.
SKEHAN, Peter. Modelling second language performance: integrating complexity, accuracy, fluency, and lexis. Applied Linguistics, v. 30, n. 4, p. 510-532, dez. 2009.
Este post foi escrito pelo Professor Daniel Pamplona, com exceção dos exemplos criados por inteligência artificial na seção Complexidade. Quaisquer erros são de responsabilidade do autor, incluindo eventuais equívocos cometidos pela ferramenta de inteligência artificial.

